terça-feira, 14 de julho de 2009

Medo - Continuação



Ela se encolhia entre as cobertas, soluçando. Abraçava um travesseiro pensando que ele aliviaria a dor. Rezou uma, duas vezes, pedindo pra que fosse levada desse mundo, da maneira como Deus desejasse. Quis dormir e não acordar mais. Mas não aconteceu exatamente isso.
Os seus olhos se cansaram de expelir lágrimas, cerraram-se e Morfeu abriu seus braços sobre ela. Dormiu.

Uma névoa. Era só que conseguia distinguir. Ouvia passos, mas não tinha senso de percepção para ajudá-la a discernir de onde vinham os tais passos. De repente, sentiu uma presença. Um rapaz. Negro, alto, cabelos encaracolados, vestido todo de preto. Ele vinha até ela, tinha as feições tristes, os olhos fechados. ‘Será que ele é cego?’ Foi o que conseguiu pensar. Devia temer aquele homem. Por quê? Não tinha jeito e nem cara de quem queria fazer mal a ela. Ela esperou até que ele se aproximasse dela. Ele enconstou os lábios em sua orelha e perguntou:

- Desejas deixar de viver?

Ela se assustou com a pergunta. Como ele sabia? ‘Deus?’. Ele simplesmente meneou a cabeça negativamente.

- O que é você? – A pergunta sai mais ríspida do que queria.

- Responda-me primeiro e eu direi.

Ela não sabia o que pensar. Instantes atrás, era isso que queria. Mas vendo a pergunta saindo de uma forma tão peculiarmente serena daqueles lábios, e de um jeito tão firme, não sabia o que pensar. Pensou que poderia fugir dali sem responder, queria sua cama, seu travesseiro, seu choro.

- Você não tem para onde fugir. Aqui é o seu mundo, seu mundo dos sonhos. Não pense que eu sou fruto de tua imaginação, não sou. Estou aqui pra analisar se sua alma merece ser aprisionada pra sempre. Posso mudar de forma quando bem entender, talvez ajude mais se eu me caracterizar assim...

Em um momento ele era o rapaz negro, no outro, ele era sua mãe. Com aquela cara de acusadora, cheia de argumentos infundados, mas que feriam mesmo assim. O choro veio de uma vez, sem precisar chamá-lo. Ela se ajoelhou no meio da nevoa e agarrou os joelhos pensando que assim estaria mais segura. Foi quando a ladainha em sua mente começou de novo: ‘faz parar. Faz a dor parar. Livra-me de vez desse sofrimento. ME MATE!’

Esse conto continua no próximo post!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Medo




A boca sangrava. Não, ela não era vampira. A boca sangrava, porque minutos atrás a sua mãe lhe batera com veemência no rosto. Sim, um tapa na cara! Além das palavras jogadas ao vento, que pretendiam ser absorvidas por breves milésimos de segundo. Para o azar dela, não conseguiu. As palavras faziam eco em sua mente; assim como, o barulho do tapa zunia em seus ouvidos. Dor? Não do tapa.
Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela se recusava a dar o braço a torcer. A mãe já a chamava de fraca sem que ela precisasse chorar. Tarde demais! As lágrimas rolaram, feito chuva no telhado. ‘Elas secam um dia, não é?’ Era nisso que pensava quando mais um monte de palavras entrava como laminas que perfuravam cada vez mais fundo a pele dela. Perto do coração. Talvez por ser romântica demais, ela tem a tendência de dramatizar muito as suas reações e as alheias também. O choro saia cada vez mais forte, entre soluços, engasgando com sua própria saliva. Foi quando sua mente apresentou a solução... Se não estivesse viva, talvez certas coisas não acontecessem. Sua mente gostava desses assuntos, gostava de incutir-lhe uma idéia que parecia certa em determinados momentos. Mas ela era fraca demais. Não lhe apetecia a idéia de se matar com uma faca de cozinha, ou de se jogar no meio da avenida próxima de casa. Ou se enforcar no quarto, ou tomar remédios tarja preta em excesso pra ver se não acordava mais. Era isso que almejava: não acordar mais. ‘Faz parar o sofrimento’, era assim que ela pedia em seu íntimo, já era quase um mantra.

No outro lado; além, como quiser chamar, um fantasma despertava. Despertava com um sorriso de orelha a orelha. Seu nome? Medo. Era franzino, alto, com cara de poucos amigos. Ele despertou sabendo que tinha mais uma missão a ser cumprida. Mas uma alma a ser levada para as profundezas do nada, sua casa, seu lar.

Esse conto virá em algumas partes, essa é só a primeira.